Para compreender o Hinduísmo, é fundamental situá-lo historicamente. Por volta
de 3 000 a.C., a Índia era habitada por povos que cultuavam o Pai do Universo,
numa espécie de fé monoteísta. Pouco depois, em 2 500 a.C., floresceu a
civilização dravídica, no vale do rio Indo, região que hoje corresponde ao
Paquistão e parte da Índia. Os drávidas eram adeptos de uma filosofia de louvor
à natureza, de orientação matriarcal e baseada no princípio da não-violência.
Porém, em 1 500 a.C., os arianos invadiram e dominaram aquela região, reduzindo
os antigos drávidas à condição de "párias" - espécie de sub-classe social, que
até hoje permanece sendo a casta mais baixa da pirâmide social indiana.
Hinduísmo Védico e Hinduísmo Bramânico
Na primeira fase do Hinduísmo, que recebe o nome de Hinduísmo Védico, temos o
culto aos deuses tribais. Dyaus, ou Dyaus-Pitar ("Deus do Céu", em sânscrito),
era o deus supremo, consorte da Mãe Terra. Doador da chuva e da fertilidade, ele
gerou todos os outros deuses. O Sol (Surya), a Lua (Chandra) e a Aurora (Heos)
eram os deuses da luz. Divindades menores e locais são as árvores, as pedras, os
rios e o fogo. A partir da influência ariana, o simbolismo de Dyeus passou por
uma transformação e tornou-se Indra, jovem divindade que rege a guerra, a
fertilidade e o firmamento. Indra representa os aspectos benevolentes da
tempestade, em contraposição a Rudra, provável precursor do deus Shiva, o
destruidor. Também nesse período surgiram diversas outras divindades, inclusive
Asura, representante das forças maléficas.
Na segunda fase do Hinduísmo, que recebe os nomes de Vedanta (fim dos Vedas) ou
Hinduísmo Bramânico, ocorre a ascensão de Brahma, a divindade que simboliza a
alma universal. Brahma é um dos deuses que compõem o Trimurti (Trindade) do
Hinduísmo. Ele representa a força criadora. Os dois outros deuses são Vishnu, o
preservador, e Shiva, o destruidor. Neste momento, surge a figura dos brâmanes,
que compõem a casta sacerdotal da tradição hindu. Os rituais ganham uma série de
componentes mágicos e elaboram-se idéias mais complexas acerca do Universo e da
alma, inclusive conceitos como o de reencarnação e o de transmigração de almas.
Mais História - A terceira fase
No século 12, a Índia é invadida pelos muçulmanos, e grande parte de sua
população é forçada à conversão. Aliás, o termo hindu designava qualquer pessoa
nascida na Índia, mas a partir do século 13 este termo ganhou uma conotação
religiosa, tornando-se sinônimo de "nativo não-convertido ao Islamismo".
A
influência muçulmana se faz sentir dentro da ritualística hindu, pois uma das
características marcantes do Hinduísmo é sua capacidade de absorver novos
elementos e agregá-los ao seu sistema de crenças. Isso também ocorre quando, no
século 18, o Cristianismo se insere no universo indiano, pela influência
predominante dos colonizadores franceses.
Este Hinduísmo híbrido também se divide em várias correntes, cujos expoentes são
gurus como Sri Ramakrishna (1834-86), Vivekananda (1863-1902) e Sri Aurobindo
(1872-1950). O que essas correntes têm em comum é a preocupação em estender o
trabalho espiritual ao âmbito social, por meio de trabalhos filantrópicos e
assistenciais.
Por força dessa nova fase, a própria organização social da Índia - em sistema de
castas -, começa a perder o sentido, pois existe um clamor ético por igualdade e
solidariedade. O maior mestre do Hinduísmo moderno é
Mahatma Gandhi
(1869-1948), conhecido no Ocidente como chefe político, mas venerado na Índia
como guru espiritual. Gandhi, adepto da Ahimsa (o princípio da não-violência),
apregoava a importância do homem exercer perfeito controle sobre si mesmo.
Hoje, o Hinduísmo é a crença predominante na Índia. Mais do que uma religião,
ele se caracteriza como uma tradição cultural, que engloba modo de viver, ordem
social, princípios éticos e filosóficos.
Os homens hindus
distinguiam se, muitas vezes, pelos seus compridos e fluentes turbantes,
enquanto que as mulheres eram caracterizadas pelos seus coloridos “saris”.
Tradicionalmente os hindus têm
sido divididos em quatro castas: os Bramanes, os Kchatriyas, os Vaicyas e os
Sudras. Os que não pertencem a nenhuma destas castas são chamados “os
intocáveis”! Lutas tribais entre castas é muito comum.
A casta Bramane é considerada a mais elevada, a mais inteligente, superior. O
casamento, associações íntimas, negócios ou sociedades entre membros de
castas diferentes são totalmente proibidos.
Os hindus acreditam que:
1. Deus é um ser impessoal, presente em todo o lugar. São, por conseqüência, panteístas.
2. A salvação final virá através da purificação, por meio de atos ou obras justas ou boas.
3. A reencarnação ou uma série de mortes e nascimentos até que uma pessoa atinja o ciclo da perfeição,
chamado karma.
4. Jesus foi apenas um bom homem, um mestre iluminado ou profeta.
5. As antigas escrituras indianas como a Bagda Vita, são de qualidade superior aos ensinos morais da
Bíblia.
6. A essência da vida consiste em desenvolver o “deus interior” até atingir um estado de perfeição moral.
As Escrituras Sagradas
VEDAS: Primeiros livros do Hinduísmo, surgidos aproximadamente no ano de 1 000
a.C., que aglutinam quatro coletâneas de textos. Dentre eles, destaca-se o
Mahabharata, que contém o poema épico Bhagavad Gita (A Canção do Senhor). O
conteúdo dos Vedas oscila entre o Monoteísmo (culto a um deus único) e o
Politeísmo (culto a diversos deuses).
UPANISHADS: Essas escrituras, que podem ser traduzidas como Doutrinas Arcanas,
foram redigidas por místicos que representam o expoente máximo do Bramanismo
(uma das vertentes do Hinduísmo). Sua estrutura é a de uma série de diálogos
entre mestres e discípulos, cujo ensinamento fundamental é o seguinte: o mundo
em que vivemos é feito de maya (ilusão), e embora possamos ter a impressão de
que o mundo é real, a única verdade é Brahma, a divindade suprema.
Fundamentos importantes
- Para o Hinduísmo, as pessoas possuem um espírito (atman), que é uma força perene e
indestrutível. A trajetória desse espírito depende das nossas ações, pois a
toda ação corresponde uma reação - Lei do Carma.
- Enquanto não
atingimos a libertação final - chama de moksha -, passamos continuamente por
mortes e renascimentos. Este ciclo é denominado Roda de Samsara, da qual só
saímos após atingirmos a Iluminação.
- Os rituais
se compõem de dois elementos principais: Darshan, que é a meditação /
contemplação da divindade, e o Puja (oferenda).
- A
alimentação vegetariana é um dos pontos essenciais da filosofia hindu. Isso
porque é livre da impureza (morte / sangue), e como todo alimento deve ser
antes oferecido aos deuses, não se poderia ofertar algo que fosse "sujo".
- As preces
são entoadas como cânticos no idioma sânscrito, língua "morta" que deu
origem ao hindi e a um grande número de dialetos praticados na Índia. Essas
preces recebem o nome de mantras. Os mantras são dirigidos a diversas
divindades, ou estimulam qualidades pessoais. Em geral, são entoados 108
vezes, e para sua contagem utiliza-se o japa-mala (colar de contas), uma
espécie de "rosário", confeccionado em sândalo ou com sementes de rudraksha
(árvores consideradas altamente auspiciosas pela tradição indiana).
- O mantra
mais importante é o OM, "sílaba sagrada" que representa o próprio nome de
Deus. OM é a semente de todos os mantras e princípio da criação. Foi dele
que derivou toda a matéria - neste aspecto, podemos até traçar um paralelo
com o gênesis da Bíblia: "E o som se fez carne".
Shiva, a divindade mais popular da Índia
Shiva é a divindade que representa o princípio masculino. É o deus da morte, da
destruição e das transformações profundas. Sua atuação é fundamental, porque do
caos que ele promove, é que se faz a nova vida.
Em geral, é mostrado em movimento de dança, no meio de uma roda de Fogo,
elemento da natureza ao qual ele está associado. Sua dança, denominada Tandava,
simboliza o eterno movimento do universo. Com o pé direito, ele esmaga a cabeça
de uma figura bestial - a ignorância - e com o pé esquerdo ele faz um movimento
ascendente, indicando a liberação espiritual.
Na Índia, é comum encontrarmos os saddhus - homens "santos", que renunciam ao
mundo e vagueiam em busca de sabedoria e iluminação. Devotos de Shiva, os
saddhus costumam andar seminus, têm os cabelos bastante compridos e emaranhados
e dedicam-se à prática da ioga, que seria uma expressão da dança de Shiva.
O princípio feminino da criação é Shakti, que se manifesta como Parvati (a mãe),
Durga (a deusa da beleza), Lakshmi (senhora da arte e da criatividade) e Kali
(senhora da destruição). Todas elas são esposas de Shiva.