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Os Nórdicos eram muito claros (loiros ou até
ruivos), e Leif Eriksson havia acabado de encontrar índios norte-americanos, era
natural que ele os achasse diferentes, por isso os batizou de Skraelings, que
quer dizer feios. Naturalmente, a viagem
havia sido desgastante e Leif Eriksson e seus homens resolveram montar
acampamento para passar alguns meses antes de voltar para a Groenlândia.Neste
tempo, eles conviveram com os nativos, e sua convivência foi pacífica. Eles
trocaram tecidos vermelhos por peles e couros de animais e, quando retornaram a
Groenlândia, contaram a História dizendo que o lugar era maravilhoso.
Batizaram-no de Vinland (terra das vinhas), para atrair pessoas para o novo
povoamento. Ainda no ano 1000, Leif Eriksson retornou a
Vinland e fundou a cidadezinha de L’Anse-aux-Meadows, com cerca de trinta
pessoas entre homens, mulheres e crianças. Depois retornou à Groenlândia (ainda
no ano 1000) para buscar mais pessoas, mas soube que seu pai havia morrido e que
ele precisava assumir a vila de Brattahlid em seu lugar. Devido a este imprevisto, Leif Eriksson abandonou o projeto
de povoar Vinland, e nunca mais foi para L’Anse-aux-Meadows. Mesmo assim,
continuaram a ir knorrs carregados de pessoas para lá, até o ano 1003, mas
depois pararam, pois a própria população da Groenlândia já era
escassa. Por volta de 1009, a população de
L’Anse-aux-Meadows beirava as duzentas ou trezentas pessoas, mas começaram a
ocorrer duas crises no local. A primeira era de ordem econômica, pois como não
iam mais knorrs para lá há seis anos, estavam começando a faltar coisas como
tecidos, gado e produtos que a região não tinha condições de produzir. Além
disso, os indígenas, antes amigáveis, estarem agora exercendo muita pressão
sobre os Vikings para que estes trocassem com eles suas armas por peles de
animais, coisa que os Vikings não queriam fazer, para não armar os possíveis
inimigos de amanhã. O clima entre os Vikings e os Skraelings ficou
cada vez mais tenso nos três anos subseqüentes, até que, em 1012, os índios
atacaram L’Anse-aux-Meadows, mataram todos (ou pelo menos a grande maioria) de
seus habitantes, queimaram ou destruíram a maioria das casas (algumas
sobreviveram e foram encontradas, junto com resquícios de cerâmicas Vikings, em
escavações realizadas em 1962, o que provou de fato a existência de Vinland) e
assim puseram um fim às pretensões dos Vikings de colonizar aquilo que viria a
ser a América. A Groenlândia continuou a enviar knorrs a Markland
para pegar madeira até 1035. Depois, as terras descobertas no ocidente começaram
a se tornar inviáveis economicamente e, por isso, foram abandonadas até caírem
no esquecimento inclusive do próprio povo da Groenlândia. Desta aventura fica uma única questão: Será que devemos reverenciar a Cristóvão Colombo
por descobrir a América, ou aos Vikings, que afinal o fizeram quase quinhentos
anos antes e com recursos muito menos avançados, pois não conheciam nem a
bússola, nem o astrolábio, nem mesmo desenhavam mapas dos oceanos, ou seja,
realizaram uma empreitada muito mais difícil e, por quê não, corajosa. É uma
coisa que devemos pensar.Se na realidade é tão importante para nós fixarmos
datas, marcos e reverenciarmos heróis (e não os processos que ocorreram
para que os fatos se desenvolvessem, o que seria mais correto), então acho que
temos mais do que a obrigação de reverenciarmos os verdadeiros heróis e, neste
caso, o herói (ou meramente descobridor, como queiram) é Leif Eriksson. 8 – A União de Calmar, o Fim da Groenlândia e o
Legado Viking: Neste item falarei sobre os três temas acima
descritos, que apesar de não fazerem mais parte da chamada Era Viking, considero
de suma importância que sejam estudados, mesmo que superficialmente, para que
não tenhamos sobre os Vikings a mesma impressão que temos sobre a Grécia após a
morte de Alexandre, ou sobre Roma depois da adoção do Cristianismo e antes de
sua queda, ou seja, a impressão de que tudo acabou e que nada mais resta do que
havia. Essa é inclusive uma impressão muito comum para nós, já que gostamos
tanto de estabelecer marcos. Os marcos só nos servem para facilitar a
contextualização dos fatos no tempo, e não para que criemos a falsa idéia de que
certa coisa existia, e de um dia para o outro passou a não existir mais.
Portanto, é errado pensarmos que Roma caiu, pois apesar de ter sido capturada
por Godos, Roma já estava em decadência a vários anos, e sua captura só foi
possível graças a isso. O mesmo ocorre com os Vikings, uma vez que sua Era só
chegou ao fim devido aos erros (como a adoção do Catolicismo) de seus
governantes, já que isso descaracterizou o povo. Só adotamos o marco da morte de Haraldo Hardrada na Batalha de Stamford Bridge como o final da Era Viking, pois
temos a necessidade de explicar para nossos próprios cérebros quando devemos
parar de chamar os Escandinavos de Vikings. Mas como já expliquei, o mais
correto é não chamar de Viking a um Escandinavo Cristão. Para melhor compreensão dos fatos neste trecho (já
que um não é diretamente ligado ao outro), acredito que seja melhor estudar cada
um deles isoladamente, como um item próprio, baseado na cronologia dos
fatos. 8.1 – Os Legados Vikings: Apesar de ser um verdadeiro chavão, a frase a
seguir descreve com precisão o que foram os Vikings: “foram um povo à frente de
seu tempo”. É a mais pura verdade, talvez por isso tenham nos
deixado tantos legados, que no mais das vezes, nem sabemos que se tratam de
legados Vikings. Durante os primeiros séculos da Idade Média, ou
seja, durante a chamada Alta Idade Média, quando o que chamamos de Feudalismo
ainda não existia, vários povos ditos Germânicos entraram no cenário Europeu e,
como disse, os Vikings (juntamente como os Varegues) foram os
últimos. O Feudalismo foi um fenômeno que ocorreu
propriamente dito na chamada Idade Média Central e, como é estudado, apenas na
chamada Ilha de França, região do Reino Franco. Suas bases foram lançadas pelos
Romanos, com leis como o Colonato acrescidas da moral Cristã. As invasões dos Godos (Ostrogodos (na Itália) e Visigodos (na Espanha)) trouxeram ao cenário
Europeu Ocidental a tradição da Vassalagem, que somada às tradições romanas,
embasaram Carlos Magno na divisão interna de seu Império, uma vez que ele, ao
conquistar novas terras, submetia o Rei delas à sua suserania, sendo assim, a
evolução dessa situação, que ocorreu após a morte de Carlos Magno, deu
origem ao feudalismo de fato, que digamos, só principiou no século
XI. Devido a isso, podemos concluir que os Vikings
existiram (no esplendor de sua Era) no período imediatamente posterior à chegada
Árabe a Europa, e anterior ao estabelecimento do Feudalismo, como nós
conhecemos. A época era de muitas transformações, pois como
mencionei, vários povos novos haviam entrado no contexto europeu recentemente, a
Igreja Católica tentava se afirmar (e estava começando a conseguir) em meio a
tantos povos não Cristãos, o ideal de restauração do Império Romano permanecia
vivo na mente dos grandes Reis do período (primeiro com Justiniano, depois
Carlos Magno e por fim Oto I), além de o comércio marítimo europeu estar, senão
morto, adormecido depois da entrada dos Árabes na Espanha. Foi nesse contexto que os Vikings existiram.Eles,
com suas drakkars punham medo em todas as populações Européias, desde Árabes até
Italianos, passando por Francos, Germânicos e principalmente Ingleses. Seus
reides, inicialmente apenas com o objetivo de realizar saques, acabaram por
criar colônias e bases militares, fundando e ampliando dezenas de cidades e
vilas em todo o ocidente Europeu (no oriente do continente o fenômeno foi
semelhante (mas em menor escala) em relação aos Varegues). Os Vikings eram exímios artesãos, sabiam trabalhar
muito bem a madeira, o marfim e o ferro. Criaram uma religião com preceitos tão
avançados que só foram de novo pensados (ou copiados) no século XVI, por Lutero
e Calvino. Suas técnicas de navegação eram tão avançadas que só foram, de fato,
superadas pelos Portugueses no século XV, ou seja, mais de quatrocentos anos
depois. Eles proporcionaram um renascimento, ainda que temporário, do comércio
marítimo Europeu, com rotas através dos mares Báltico e do Norte, além de rios
Europeus como o Ródano, o Reno, o Sena e o Tâmisa. Além disso, algumas palavras
e jogos (como os RPGs), de hoje são baseados em palavras, atitudes e crenças
Vikings. Apesar de todos esses feitos serem impressionantes, eles não constituem
os principais legados Vikings.Vejamos então quais foram esses
legados. Digamos que, por causa dos Vikings, a Inglaterra
se unificou, ou passou a reconhecer um único Rei como sendo o Rei de toda a
Inglaterra (ainda que em períodos posteriores, este domínio não tenha sido tão
forte, devido ao Feudalismo, que apesar de não ter existido como o estudamos na
Inglaterra, também a atingiu) muito mais cedo do que o faria se não tivesse
recebido a pressão externa que recebeu. Os descobrimentos Vikings, como a Islândia, a
Groenlândia e a América (com Vinland, Markland e Helluland) foram também tão
impressionantes que podemos chamar sua época de Primeira Era dos Descobrimentos,
sendo a chamada Era dos Descobrimentos, então, a Segunda Era dos
Descobrimentos. Podemos também dizer que os Vikings auxiliaram na
formação de um povo: os Normandos.Inclusive, os Normandos tiveram sua Época de
Ouro imediatamente após o fim da Era Viking, uma vez que a conquista da
Inglaterra por Guilherme, o Conquistador, Duque da Normandia, o marco (outra vez
essa palavra) inicial da Era Normanda, ocorreu um mês depois da derrota de
Haraldo Hardrada na Batalha de Stamford Bridge, o marco final da Era Viking.
Sendo assim, podemos realmente dizer (apesar de os Normandos já na época de
Guilherme terem mais características Francas do que Vikings), que os Normandos
são os herdeiros dos Vikings. |