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OS VIKINGS

Danilo José Figueiredo - danilo_jose_figueiredo@hotmail.com
3º Semestre - História/USP

Os Nórdicos eram muito claros (loiros ou até ruivos), e Leif Eriksson havia acabado de encontrar índios norte-americanos, era natural que ele os achasse diferentes, por isso os batizou de Skraelings, que quer dizer feios.
Naturalmente, a viagem havia sido desgastante e Leif Eriksson e seus homens resolveram montar acampamento para passar alguns meses antes de voltar para a Groenlândia.Neste tempo, eles conviveram com os nativos, e sua convivência foi pacífica. Eles trocaram tecidos vermelhos por peles e couros de animais e, quando retornaram a Groenlândia, contaram a História dizendo que o lugar era maravilhoso. Batizaram-no de Vinland (terra das vinhas), para atrair pessoas para o novo povoamento.

Ainda no ano 1000, Leif Eriksson retornou a Vinland e fundou a cidadezinha de L’Anse-aux-Meadows, com cerca de trinta pessoas entre homens, mulheres e crianças. Depois retornou à Groenlândia (ainda no ano 1000) para buscar mais pessoas, mas soube que seu pai havia morrido e que ele precisava assumir a vila de Brattahlid em seu lugar.
Devido a este imprevisto, Leif Eriksson abandonou o projeto de povoar Vinland, e nunca mais foi para L’Anse-aux-Meadows. Mesmo assim, continuaram a ir knorrs carregados de pessoas para lá, até o ano 1003, mas depois pararam, pois a própria população da Groenlândia já era escassa.

Por volta de 1009, a população de L’Anse-aux-Meadows beirava as duzentas ou trezentas pessoas, mas começaram a ocorrer duas crises no local.

A primeira era de ordem econômica, pois como não iam mais knorrs para lá há seis anos, estavam começando a faltar coisas como tecidos, gado e produtos que a região não tinha condições de produzir. Além disso, os indígenas, antes amigáveis, estarem agora exercendo muita pressão sobre os Vikings para que estes trocassem com eles suas armas por peles de animais, coisa que os Vikings não queriam fazer, para não armar os possíveis inimigos de amanhã.

O clima entre os Vikings e os Skraelings ficou cada vez mais tenso nos três anos subseqüentes, até que, em 1012, os índios atacaram L’Anse-aux-Meadows, mataram todos (ou pelo menos a grande maioria) de seus habitantes, queimaram ou destruíram a maioria das casas (algumas sobreviveram e foram encontradas, junto com resquícios de cerâmicas Vikings, em escavações realizadas em 1962, o que provou de fato a existência de Vinland) e assim puseram um fim às pretensões dos Vikings de colonizar aquilo que viria a ser a América.

A Groenlândia continuou a enviar knorrs a Markland para pegar madeira até 1035. Depois, as terras descobertas no ocidente começaram a se tornar inviáveis economicamente e, por isso, foram abandonadas até caírem no esquecimento inclusive do próprio povo da Groenlândia.

Desta aventura fica uma única questão:

Será que devemos reverenciar a Cristóvão Colombo por descobrir a América, ou aos Vikings, que afinal o fizeram quase quinhentos anos antes e com recursos muito menos avançados, pois não conheciam nem a bússola, nem o astrolábio, nem mesmo desenhavam mapas dos oceanos, ou seja, realizaram uma empreitada muito mais difícil e, por quê não, corajosa. É uma coisa que devemos pensar.Se na realidade é tão importante para nós fixarmos datas,  marcos e reverenciarmos heróis (e não os processos que ocorreram para que os fatos se desenvolvessem, o que seria mais correto), então acho que temos mais do que a obrigação de reverenciarmos os verdadeiros heróis e, neste caso, o herói (ou meramente descobridor, como queiram) é Leif Eriksson.

8 – A União de Calmar, o Fim da Groenlândia e o Legado Viking:

Neste item falarei sobre os três temas acima descritos, que apesar de não fazerem mais parte da chamada Era Viking, considero de suma importância que sejam estudados, mesmo que superficialmente, para que não tenhamos sobre os Vikings a mesma impressão que temos sobre a Grécia após a morte de Alexandre, ou sobre Roma depois da adoção do Cristianismo e antes de sua queda, ou seja, a impressão de que tudo acabou e que nada mais resta do que havia. Essa é inclusive uma impressão muito comum para nós, já que gostamos tanto de estabelecer marcos.

Os marcos só nos servem para facilitar a contextualização dos fatos no tempo, e não para que criemos a falsa idéia de que certa coisa existia, e de um dia para o outro passou a não existir mais. Portanto, é errado pensarmos que Roma caiu, pois apesar de ter sido capturada por Godos, Roma já estava em decadência a vários anos, e sua captura só foi possível graças a isso. O mesmo ocorre com os Vikings, uma vez que sua Era só chegou ao fim devido aos erros (como a adoção do Catolicismo) de seus governantes, já que isso descaracterizou o povo. Só adotamos o marco da morte de Haraldo Hardrada na Batalha de Stamford Bridge como o final da Era Viking, pois temos a necessidade de explicar para nossos próprios cérebros quando devemos parar de chamar os Escandinavos de Vikings. Mas como já expliquei, o mais correto é não chamar de Viking a um Escandinavo Cristão.

Para melhor compreensão dos fatos neste trecho (já que um não é diretamente ligado ao outro), acredito que seja melhor estudar cada um deles isoladamente, como um item próprio, baseado na cronologia dos fatos.

8.1 – Os Legados Vikings:

Apesar de ser um verdadeiro chavão, a frase a seguir descreve com precisão o que foram os Vikings: “foram um povo à frente de seu tempo”.

É a mais pura verdade, talvez por isso tenham nos deixado tantos legados, que no mais das vezes, nem sabemos que se tratam de legados Vikings.

Durante os primeiros séculos da Idade Média, ou seja, durante a chamada Alta Idade Média, quando o que chamamos de Feudalismo ainda não existia, vários povos ditos Germânicos entraram no cenário Europeu e, como disse, os Vikings (juntamente como os Varegues) foram os últimos.

O Feudalismo foi um fenômeno que ocorreu propriamente dito na chamada Idade Média Central e, como é estudado, apenas na chamada Ilha de França, região do Reino Franco. Suas bases foram lançadas pelos Romanos, com leis como o Colonato acrescidas da moral Cristã. As invasões dos Godos (Ostrogodos (na Itália) e Visigodos (na Espanha)) trouxeram ao cenário Europeu Ocidental a tradição da Vassalagem, que somada às tradições romanas, embasaram Carlos Magno na divisão interna de seu Império, uma vez que ele, ao conquistar novas terras, submetia o Rei delas à sua suserania, sendo assim, a evolução dessa situação, que ocorreu após a morte de Carlos Magno,  deu origem ao feudalismo de fato, que digamos, só principiou no século XI.

Devido a isso, podemos concluir que os Vikings existiram (no esplendor de sua Era) no período imediatamente posterior à chegada Árabe a Europa, e anterior ao estabelecimento do Feudalismo, como nós conhecemos.

A época era de muitas transformações, pois como mencionei, vários povos novos haviam entrado no contexto europeu recentemente, a Igreja Católica tentava se afirmar (e estava começando a conseguir) em meio a tantos povos não Cristãos, o ideal de restauração do Império Romano permanecia vivo na mente dos grandes Reis do período (primeiro com Justiniano, depois Carlos Magno e por fim Oto I), além de o comércio marítimo europeu estar, senão morto, adormecido depois da entrada dos Árabes na Espanha.

Foi nesse contexto que os Vikings existiram.Eles, com suas drakkars punham medo em todas as populações Européias, desde Árabes até Italianos, passando por Francos, Germânicos e principalmente Ingleses. Seus reides, inicialmente apenas com o objetivo de realizar saques, acabaram por criar colônias e bases militares, fundando e ampliando dezenas de cidades e vilas em todo o ocidente Europeu (no oriente do continente o fenômeno foi semelhante (mas em menor escala) em relação aos Varegues).

Os Vikings eram exímios artesãos, sabiam trabalhar muito bem a madeira, o marfim e o ferro. Criaram uma religião com preceitos tão avançados que só foram de novo pensados (ou copiados) no século XVI, por Lutero e Calvino. Suas técnicas de navegação eram tão avançadas que só foram, de fato, superadas pelos Portugueses no século XV, ou seja, mais de quatrocentos anos depois. Eles proporcionaram um renascimento, ainda que temporário, do comércio marítimo Europeu, com rotas através dos mares Báltico e do Norte, além de rios Europeus como o Ródano, o Reno, o Sena e o Tâmisa. Além disso, algumas palavras e jogos (como os RPGs), de hoje são baseados em palavras, atitudes e crenças Vikings. Apesar de todos esses feitos serem impressionantes, eles não constituem os principais legados Vikings.Vejamos então quais foram esses legados.

Digamos que, por causa dos Vikings, a Inglaterra se unificou, ou passou a reconhecer um único Rei como sendo o Rei de toda a Inglaterra (ainda que em períodos posteriores, este domínio não tenha sido tão forte, devido ao Feudalismo, que apesar de não ter existido como o estudamos na Inglaterra, também a atingiu) muito mais cedo do que o faria se não tivesse recebido a pressão externa que recebeu.

Os descobrimentos Vikings, como a Islândia, a Groenlândia e a América (com Vinland, Markland e Helluland) foram também tão impressionantes que podemos chamar sua época de Primeira Era dos Descobrimentos, sendo a chamada Era dos Descobrimentos, então, a Segunda Era dos Descobrimentos.

Podemos também dizer que os Vikings auxiliaram na formação de um povo: os Normandos.Inclusive, os Normandos tiveram sua Época de Ouro imediatamente após o fim da Era Viking, uma vez que a conquista da Inglaterra por Guilherme, o Conquistador, Duque da Normandia, o marco (outra vez essa palavra) inicial da Era Normanda, ocorreu um mês depois da derrota de Haraldo Hardrada na Batalha de Stamford Bridge, o marco final da Era Viking. Sendo assim, podemos realmente dizer (apesar de os Normandos já na época de Guilherme terem mais características Francas do que Vikings), que os Normandos são os herdeiros dos Vikings.

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