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O "MÃO SANTA"

CARREIRA

 


Oscar e Zezão

Uma febre reumática, aos 12 anos, quase o tornou nadador quando ele ensaiava as primeiras braçadas no América de Natal (RN), cidade onde nasceu.
Um ano depois, mudou com a família para Brasília e já medindo 1,90m, seu tio Alonso o aconselha a procurar o clube Unidade Vizinhança para treinar e fazer amigos. Lá (como ele mesmo diz), teve a sorte de conhecer o Zezão, que também dava aulas de Educação Física na escola onde estudava, o Colégio Dom Bosco.

"Ele era do tipo paizão, levava as crianças para tomar refrigerante após as aulas, tinha sempre uma palavra de carinho e incentivo".

"Que delícia era treinar com ele! Sua iniciativa de usar o reforço positivo para tirar o máximo de cada garoto foi o que me levou a me apaixonar pelo basquete. Ele fez com que jogar fosse a coisa mais agradável e importante da minha vida."

"Acho que um de seus principais méritos foi ter muito tato e psicologia para saber lidar com a gente na adolescência – uma época em que temos tantas dúvidas, tanta insegurança, tanta necessidade de acreditar em nós mesmos. Ele soube despertar o amor-próprio de cada um dos garotos, soube como nos dar coragem e confiança".

"E eu tomei tamanho gosto pelo basquete que quando me disseram, em sentido figurado, que eu teria de dormir com a bola para ser bom jogador, levei aquilo ao pé da letra e realmente passei a dormir com ela. Ficava deitado com a mão para fora da cama, batendo a bola no chão, na parede, até pegar no sono. Quando acordava, já estava com ela ali do meu lado".

Em 1974, aos 15 anos, foi para São Paulo, jogar no infantil do Palmeiras. Logo se destacou e chegou à Seleção juvenil de basquete.

Em 1977, foi eleito melhor pivô do Sul-Americano da categoria e com apenas 19 anos passou a integrar a Seleção principal, sagrando-se campeão Sul-Americano. No ano seguinte, conquistou a medalha de bronze com o Brasil no Mundial nas Filipinas, e foi levado pelo técnico Cláudio Mortari para jogar no Sírio.

Em 1979, no clube paulista, Oscar ganhou um dos principais títulos de sua carreira: a Copa William Jones, uma espécie de Mundial Interclubes. No ano seguinte participou de sua primeira Olimpíada, em Moscou, marcando 169 pontos que ajudaram o Brasil a ficar em quinto lugar.

Em 1982, Oscar deixou o Sírio, tendo uma breve passagem pelo América do Rio e indo disputar o Campeonato Italiano pelo Caserta cidade no sul da Itália próxima de Nápoli, onde brilhou por oito anos e levou o time de, um dos últimos da série A-2, para ser um dos melhores da Itália.

No primeiro ano o time subiu para a séria A-1, depois, o time melhorou ainda mais e conquistou a Copa da Itália, foram duas vezes vice-campeões de copas européias, duas vezes vice-campeões do Campeonato Italiano e duas vezes vice campeões da Copa da Itália.

Depois foi transferido para o Fernet Branca, de Pavia, outra vez um time de segunda divisão, e levou este time a primeira divisão do campeonato. Foi em Pavia que Oscar alcançou seu auge técnico e fez a sua melhor temporada, mas o time não repetiu as mesmas conquistas do Caserta. Nesta temporada (90/91) ele anotou 1760 pontos, com uma média de 44 pontos por partida, teve uma média de 93,1% em acerto de lance livre, média de 52,7% em arremessos de 2 pontos, e média de 47,9% em arremessos de três pontos.

Em sua careira faltou apenas atuar na NBA (a liga americana de basquete profissional) apesar de ter sido convidado em 1984 e 1985. "Naquela época, quem participasse de liga profissional não podia defender a seleção nacional. Optei pelo Brasil, e não me arrependo.

Em 1987, conquistou seu maior triunfo: Os Jogos Pan-Americanos de Indianápolis, vencendo a final contra os favoritos e donos da casa, numa virada histórica de 120 x 115. "Em 106 anos de basquete, foi a primeira e única vez que os Estados Unidos perderam em casa. Foi como ganhar uma Olimpíada e tudo isso graças ao Oscar", afirma Ary Vidal, técnico do Brasil na época.

Roubando o ouro dos norte-americanos - Assista o vídeo

Após tantos anos, o final de tarde do dia 23 de agosto de 1987 ainda parece estar muito claro em nossa lembrança. O palco era o Market Square Arena, Indianápolis, ginásio do Indiana Pacers e da Universidade de Indiana.

O espetáculo, a final dos 10º Jogos Pan-americanos. De um lado a equipe brasileira; do outro, os norte-americanos. Os Estados Unidos já tinham toda a festa preparada para seu time. No elenco destacavam-se jogadores que mais tarde se tornaram grandes astros da NBA, como David Robinson, Rex Chapman, Dan Majerle e Danny Manning. A seleção do Tio Sam já atropelara Porto Rico nas semifinais, impondo uma vantagem final de cinco pontos. Para os brasileiros, a classificação havia sido contra o México com um placar de 137 a 116.

A nossa seleção não assustava muito o técnico Denny Crum. A única tática necessária para garantir o ouro era uma defesa forte em cima de Oscar e Marcel que, segundo ele, tinham uma precisão muito grande nos arremessos.
Fim do primeiro tempo. Parece que a história do feminino, que perdera na preliminar para as donas da casa, se repetiria no masculino e, mais uma vez, nos contentaríamos com a prata. Mas a história não se repetiu...

A equipe formada por Gérson, Oscar, Israel, Marcel e Guerrinha (que substituía o armador Maury, vítima de contusão) voltou com muita determinação e com um ataque extremamente preciso, sobretudo nas bolas de três pontos que foram a chave para a virada do Brasil. Oscar e Marcel se revezavam na artilharia, Israel e Gérson tomavam posse do garrafão norte-americano. Os "reis do basquete" não conseguiam entender o que estava acontecendo, nem mesmo sua fiel torcida, que se calava a cada cesta de Oscar e Marcel. Talvez nem mesmo os brasileiros conseguissem acreditar... Soa o alarme em Indianápolis: EUA 115 x 120 Brasil. A cena do banco norte-americano cabisbaixo era contrastante com a euforia de Oscar, deitado no chão, gritando e chorando. Essa era a maior conquista do esporte nacional, desde a Copa do Mundo de 70.

No outro dia, na capa do New York Times, a imagem do "Day After" da catástrofe do basquete norte-americano era uma foto, em primeira página, de Marcel, ajoelhado e chorando, abraçado a seu irmão Maury. Oscar foi o cestinha da competição com 246 pontos e, futuramente, seria o primeiro jogador brasileiro a ter sua camisa colocada no hall da fama do basquete norte-americano, em Springfield, Massachussets.

O Brasil perdia por 20 pontos no final do primeiro tempo, quando Oscar e Marcel, líderes do time, comandaram a reação. "Quando o impossível vira realidade, aí está o milagre do esporte", diz Oscar.

"Esse foi o dia mais lindo da minha carreira de basquete e nenhum outro igual. Por que às vezes você ganha um campeonato brasileiro, sul-americano, qualquer campeonato bonito assim, mas é uma coisa provável, você joga de igual para igual com esses times. Mas quando você ganha uma coisa que é totalmente improvável..." - Oscar Schmidt - sobre a vitória em cima dos EUA no Pan-87.

Em 1988, nas Olimpíadas de Seul, foi pela 1a. vez o cestinha da competição, com 338 pontos. Os 55 pontos marcados contra a Espanha foram mais um recorde – o de maior número de pontos numa partida olímpica.

Em 1990, novo o recorde de pontos numa partida de Campeonatos Mundiais – 52 contra a Austrália.

No contrato com o Caserta havia uma cláusula que impedia Oscar de atuar por outro time da série A1 da Itália. Oscar voltou então a disputar a A2 com o Pavia, time com o qual fez um bom contrato. Já na primeira temporada, Oscar comandou o time à conquista da A2 e, no ano seguinte, o time já figurava entre os grandes da Itália.

Na temporada 90/91, aos 33 anos, o Mão Santa fez o melhor campeonato de sua carreira. Teve uma média de 44 pontos em 40 jogos, num total de 1.760 pontos. Embora o ala estivesse fazendo "chover" na Pavia, a equipe não foi crescendo como o Caserta e continuava numa divisão intermediária. Nosso astro ficou por lá por três anos até que o time faliu.

Após a falência, Oscar recebeu uma boa proposta de espanhol Valladolid. "Fui só pra ganhar dinheiro, mesmo. Não via a hora de sair da Espanha", afirma Oscar. No basquete espanhol, o profissionalismo imperava e não havia aquela amizade existente no sul da Itália.
Oscar não reclama do período em que esteve fora do País e diz que soube levar tudo numa boa. "Acho que é ridículo o cara sair do País, estar ganhando muito bem lá fora e depois ficar reclamando que não tem feijão, que está com saudade não sei do quê. Quanta gente não daria a vida para estar no meu lugar?", desafia.

Em 1992, Oscar foi novamente o cestinha nas Olimpíadas de Barcelona (198 pontos), antes de ir jogar no Forum de Valladolid, na Espanha, e anunciou seu afastamento da Seleção Brasileira.

Em 1995, voltou ao Brasil e foi jogar pelo corinthians, além de ser Secretário de Esportes da Prefeitura de São Paulo e candidatar-se ao senado federal, obtendo 5.752.202 votos, porém não se elegendo. "Pensaram que o meninão do basquete não era bom de voto, acho que surpreendi".

Em 1996, apesar da promessa de abandonar a Seleção, Oscar foi a Atlanta para sua quinta e última Olimpíada, igualando e dividindo o recorde de participações com o porto-riquenho Teófilo da Cruz. A despedida da Seleção, depois de 7.693 pontos e 326 jogos, não fez jus à sua trajetória, com a derrota para a Grécia na disputa do quinto lugar.
Oscar foi pela terceira vez o cestinha da competição, com 219 pontos, tornando-se o primeiro atleta a superar a marca dos mil pontos em Olimpíadas - precisamente 1.093.

Após o jogo contra a Croácia (em que alcançou os 1000 pontos) Oscar entregou sua camisa e a bola do jogo autografada para ser exposta para sempre no Hall of Fame, o museu do basquete localizado em Springfield (EUA), onde são homenageados os maiores jogadores de basquete de todos os tempos. Até hoje, apenas 10 jogadores não americanos receberam esta honra, e Oscar é o único que nunca jogou na NBA.


Oscar e o amigo China
 (ex-craque)

Em 1997, Oscar aceitou o desafio de ser Secretário Municipal de Esportes de São Paulo, no governo de Celso Pitta, mas continuava jogando pelo Banco Bandeirantes, tendo como técnico o ex-companheiro de Seleção Marcel. Estabeleceu um novo recorde de pontos numa partida no Brasil (74) e foi o cestinha do campeonato paulista de 97, com 1.161 pontos, alcançando a incrível média de 41,5 pontos por partida.

 
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